Como testar uma paleta antes de usar
Roteiro de seis testes simples para saber se uma paleta funciona: contraste, escala de cinza, daltonismo, telas diferentes, uso real e olhar de outra pessoa.
Uma paleta funciona quando o texto se lê, a hierarquia aparece, a informação não depende só da cor e o conjunto continua bom em telas e situações diferentes. Para saber isso, faça seis testes curtos: contraste, escala de cinza, simulação de daltonismo, outra tela, uso real e um olhar de fora. Juntos levam cerca de meia hora e evitam refazer material depois de impresso ou publicado.
Teste 1: contraste dos pares que importam
Contraste é a diferença de claridade entre duas cores, medida numa razão (1:1 é nenhuma diferença, 21:1 é preto sobre branco). Liste os pares que de fato aparecem juntos: texto sobre fundo, texto sobre botão, borda sobre fundo. Digite os códigos HEX (os códigos de seis caracteres que identificam cada cor) num verificador como o da WebAIM, que mostra o resultado para texto normal, texto grande e componentes de interface.
Os limites vêm da WCAG, o conjunto de regras de acessibilidade do W3C (a versão 2.2, de outubro de 2023, manteve os valores). No nível AA: 4,5:1 para texto normal e 3:1 para texto grande. No nível AAA: 7:1 e 4,5:1. Elementos de interface e gráficos pedem 3:1 no AA. Não arredonde: o W3C avisa que 4,499:1 não atinge 4,5:1.
Cinco pares da loja de ferramentas, medidos
Vamos testar a paleta “Teste de bancada”, pensada para o site de uma loja de ferramentas de bairro: #2D3142 (azul-grafite), #4F5D75 (azul-acinzentado), #EF8354 (laranja), #BFC0C0 (cinza-prata) e #FFFFFF. Calculei as razões pela fórmula da WCAG:
| Par | Razão | Veredito |
|---|---|---|
#2D3142 sobre #FFFFFF |
12,89:1 | texto principal, passa AAA |
#4F5D75 sobre #FFFFFF |
6,66:1 | texto de apoio, passa AA |
#EF8354 sobre #2D3142 |
4,94:1 | texto laranja no escuro, passa AA |
#EF8354 sobre #FFFFFF |
2,61:1 | falha, não usar para texto |
#BFC0C0 sobre #FFFFFF |
1,82:1 | falha, só como divisória decorativa |
O teste já rendeu duas decisões: o laranja só vai sobre o azul-grafite, e o cinza-prata nunca vira texto. Isso tudo antes de desenhar uma página.
Teste 2: escala de cinza
Converta a tela, o cartaz ou a imagem para preto e branco. Em muitos celulares, há um modo de tela em escala de cinza nas configurações de acessibilidade. Em editores de imagem, basta tirar a saturação.
Veja se a hierarquia sobrevive. O título ainda é o que mais chama atenção? O botão principal ainda se distingue? Se tudo virar uma mancha cinza parecida, suas cores dependem só do matiz e não da claridade. Isso é um sinal de risco, porque a claridade é o que mais ajuda a ler. A diferença entre os conceitos está em matiz, saturação e luminosidade.
Teste 3: simulação de daltonismo
Daltonismo é a dificuldade de distinguir certas cores. Existem simuladores gratuitos que mostram como uma imagem aparece para quem tem essa condição, e alguns navegadores trazem emulação nas ferramentas do desenvolvedor. Passe a imagem por um simulador e procure dois problemas: cores diferentes que ficaram iguais e informações que só existiam pela cor.
Okabe e Ito, dois pesquisadores japoneses que escreveram um guia de cores para pessoas daltônicas, avisam que os simuladores servem de apoio, mas são imperfeitos, e recomendam também buscar a opinião de pessoas daltônicas. Eles sugerem evitar combinações de vermelho com verde e de cores de mesma claridade.
A WCAG tem uma regra de base para isso, o critério 1.4.1: a cor não deve ser o único meio de passar uma informação. Se “pago” é verde e “atrasado” é vermelho, escreva também as palavras. Veja o assunto em não use só a cor para passar informação.
Teste 4: outra tela, outra luz
Olhe a paleta em pelo menos três situações: no computador, no celular com brilho médio e no celular ao ar livre. Cores claras e pastéis somem com o reflexo do sol. Se for projetar, aproxime do cenário real: sala com luz acesa e brilho baixo.
Se o material vai ser impresso, imprima uma folha de teste antes da tiragem. Tela mistura luz e papel mistura tinta, e a cor muda.
Teste 5: uso real, com conteúdo de verdade
Paleta testada só em quadradinhos de cor engana. Aplique-a a um material real, com texto de verdade, foto de verdade e o botão mais longo que existir. Em um site, monte a página inicial e uma página de texto longo. Em um perfil de rede social, monte três posts seguidos e olhe como grupo, não um a um.
Observe:
- A cor de destaque aparece pouco o bastante para ainda destacar?
- Os links se distinguem do texto ao redor?
- Os campos de formulário têm borda visível?
- A página cansa a vista depois de dois minutos?
Para sites, o fluxo completo está em como montar a paleta de cores de um site.
Teste 6: o olhar de fora
Mostre o material a uma pessoa que não participou da criação. Peça duas coisas: que diga o que é a primeira coisa que vê e que leia em voz alta o texto menor. Não explique nada antes. Se a pessoa hesita, o problema é da paleta, não dela.
Se possível, escolha alguém com perfil parecido com o seu público: alguém mais velho, alguém com óculos, alguém que usa o celular com letra grande.
Quatro jeitos de estragar o teste
Testar só no seu aparelho. O seu monitor pode ter calibragem diferente da do público.
Aprovar porque “gostei”. Gosto conta, mas não substitui a conta de contraste.
Testar a paleta sem o conteúdo. Quadrados de cor não mostram o texto sobre foto, por exemplo.
Parar depois de corrigir um problema. Cada correção pode criar outro. Refaça o teste 1 depois de mexer em qualquer cor.
Se um teste reprovar: quatro ajustes pequenos
Falhar num teste é normal. Quase sempre o ajuste é pequeno:
- escureça o texto até chegar a 4,5:1;
- troque a cor de um botão pelo mesmo tom, mais escuro;
- acrescente texto ou ícone onde só havia cor;
- reduza para duas cores fortes se o conjunto está confuso.
Anote a versão final, com o código HEX de cada cor e o papel dela. Quem mexer no material depois vai saber o que pode e o que não pode mudar.
Fontes
- WebAIM. WebAIM Contrast Checker.
- W3C Web Accessibility Initiative. Understanding Success Criterion 1.4.3: Contrast (Minimum).
- W3C Web Accessibility Initiative. Understanding Success Criterion 1.4.1: Use of Color.
- Masataka Okabe e Kei Ito. Color Universal Design (CUD): How to make figures and presentations that are friendly to colorblind people (2002).
Escrito pela Equipe Tom a Tom. Veja como produzimos e revisamos em Política editorial.